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A NOVA FRONTEIRA DO DEBATE
RELIGIÃO - CIÊNCIA: AS NEUROCIÊNCIAS
SOFIA REIMÃO
Resumo Os avanços das Neurociências oferecem oportunidades únicas, mas, também, renovados desafios no contexto do diálogo Ciência – Religião. Esperando compreender o Cérebro e o seu funcionamento, os neurocientistas, ancorados no exponencial desenvolvimento de técnicas de neuro-imagem, conseguiram “visualizar o cérebro em acção” e ao empreender um caminho de procura das bases anatómicas e fisiológicas do pensamento, das emoções e das acções humanas, desafiaram a forma como os seres humanos tradicionalmente se compreenderam a si próprios. Ao questionar as noções de pessoa, de liberdade, de dignidade, de responsabilidade as neurociências reposicionam, em novos domínios, um amplo espaço de debate. Contendo importantes desafios às categorias tradicionais dos conceitos de self, pessoa, liberdade, pensamento e consciência, as Neurociências inevitavelmente conduzem a uma alteração da visão da pessoa humana e do modo como se analisam as relações dos homens com Deus.
Palavras-chave: ciência, religião, neurociências, ressonância magnética funcional.
Abstract
The new frontier of the Religion-Science debate: the Neurosciences
The Neuroscience’s advances offer unique opportunities but also renewed challenges to the dialog Science – Religion. Hoping to understand the Brain and its functioning, the neuroscientists anchored in the exponential development of neuroimaging techniques were able “to visualize the brain in action” and while undertaking a way of search of the anatomical and physiologic bases of thought, of emotions and of human actions, challenged the way human beings traditionally understood themselves. While questioning the notions of person, of freedom, of dignity and of responsibility the Neurosciences re-position, in new domains, a wide space for discussion. Containing important challenges to the traditional categories of the concepts of self, person, freedom, thought and conscience, the Neurosciences inevitably leads to an alteration of the vision of the human person and of the way to analyse men’s relations with God.
Key-words: science, religion, neurosciences, functional magnetic resonance.
Contacto: Sofia Reimão Serviço de Imagiologia Neurológica. Centro Hospitalar Lisboa Norte, EPE. Av. Professor Egas Moniz 1649-035 Lisboa Telef: 217805149 E-mail – sofiapcr@hotmail.com
Introdução
O grande desenvolvimento, na área das Neurociências, a que se assistiu a partir de meados do século XX, ficará inscrito na História da Medicina. Procurando dissecar o mais complexo sistema de que temos conhecimento, o Cérebro, e esperando compreender o seu funcionamento, os neurocientistas conseguiram grandes avanços nas áreas da anatomia e da fisiologia cerebral. Ancoradas no exponencial desenvolvimento de técnicas de neuro-imagem, em especial nas áreas da Medicina Nuclear e da Ressonância Magnética (RM), as Neurociências conseguiram, mesmo, “visualizar o cérebro em acção”. No seu caminho de procura das bases anatómicas e fisiológicas do pensamento, das emoções e das acções humanas, as Neurociências deram origem a alguns dos maiores desafios à forma como os seres humanos tradicionalmente se compreenderam a si próprios. Ao questionar as noções de pessoa, de liberdade, de dignidade, de responsabilidade reposicionam, em novos domínios, um amplo espaço de debate. Em 2004, num auspicioso artigo com o título Gehirn und Geist (“Cérebro e Mente”), um grupo de neurocientistas afirmava que, num futuro próximo, seria possível explicar e predizer processos psicológicos como as sensações, as emoções, os pensamentos e as decisões com base em processos bioquímicos do cérebro (1). Estes cientistas reconheciam que se assistiria a uma significativa mudança da nossa auto-compreensão e que estaríamos “no limiar de ver a imagem de nós mesmos consideravelmente abalada no futuro próximo”(1). Este conjunto de novos dados e afirmações levou a que, nos últimos anos, a investigação na área das Neurociências evoluísse, como afirmou Jürgen Habermas, no sentido de “focar directamente a estrutura da existência e levar os cientistas naturais para o domínio da especulação filosófica”(2). Avançando por novas áreas, anteriormente objecto de outro tipo de abordagem, as neurociências perpassam, actualmente, muitos dos dualismos que fazem parte dos modelos ocidentais de pensamento como, por exemplo, razão e emoção, mente e corpo, físico e mental. Contendo importantes desafios às categorias tradicionais dos conceitos de self, pessoa, liberdade, pensamento e consciência, as Neurociências inevitavelmente conduzem a uma alteração da visão da pessoa humana. E se se modifica o modo como falamos do homem, também se altera a forma como falamos de Deus. O alcance destas implicações afecta, inevitavelmente, o modo como procuramos analisar as relações dos homens com Deus. Os avanços das Neurociências oferecem oportunidades únicas, mas, também, renovados desafios no contexto do diálogo Ciência – Religião, que tem lugar, hoje, em novo terreno, o Cérebro humano.
1. As Neurociências “modernas”
Nas Neurociências “modernas” podemos reconhecer a influência de várias concepções que, estruturalmente, as influenciam, particularmente o reducionismo, a visão naturalista do Universo e o dogma materialista. Radicadas na Psicologia como “ciência rigorosa” que desde o seu trajecto inicial, procurou adaptar o método científico ao seu objecto, quantificando, medindo e dissecando unidades elementares, para se afirmar na via de uma ciência moderna, as Neurociências adoptaram, como método de base, o reducionismo. Grande parte da investigação do funcionamento cerebral foi dedicada à tentativa de correlação de regiões cerebrais específicas com funções, comportamentos ou capacidades particulares, procurando delinear um efectivo mapeamento cerebral. Contudo, estas áreas não funcionam isoladas umas das outras; estudos recentes enfatizam a importância da integração e da interacção dinâmica de muitas das funções cerebrais. O método reducionista parece impor-se no estudo da mente, não apenas nas diferentes ciências naturais, mas emerge como tendência manifesta nas próprias ciências humanas. Com base na premissa de que a melhor forma de resolver um problema complexo é dissecar os seus elementos constitutivos, a mente transformou-se, às suas mãos, num “truque particular da matéria, redutível às leis da física” (3). Seguindo a linha da Psicologia Científica, muitas das novas técnicas e avanços, na área das Neurociências, foram aplicados a diferentes áreas do comportamento humano: as sensações foram reduzidas ao funcionamento de determinados circuitos, a mente foi fotografada enquanto pensa sobre si própria e a mais inefável das emoções foi traduzida em bioquímica cerebral (3). Neste sistema, o homem não é mais do que uma colecção de neurónios, do que um conjunto de constituintes físicos, onde têm origem todas as actividades que o caracterizam. Assim se procura explicar o amor, o medo, a alegria e a tristeza e se procura traduzir por conexões neuronais e movimento de neurotransmissores aquilo que de mais inefável a natureza humana possui. Ao descrever os processos materiais que ocorrem no nosso cérebro como um inter-cruzar de potenciais de acção e de actividade enzimática, a nossa consciência não é mais que uma soma de células em comunicação. Deslumbrados com o seu sucesso e com a magnitude das descobertas, os cientistas não pareciam contestar esta abordagem e eram alheios às reais limitações de tal método, esquecendo as características da própria ciência e, especialmente, que uma compreensão do todo escapa, claramente, a este tipo de concepção. Para além desta abordagem reducionista, as Neurociências são fortemente influenciadas pela visão naturalista que domina o pensamento Moderno Ocidental e, segundo a qual, o Universo está unificado e nos inclui como parte da natureza. Esta concepção monista do Universo, que determina todos os estados e eventos, está presente, de forma inquestionável, na visão de muitos neurocientistas. Imbuído desta visão naturalista do Universo, o dogma materialista de que nada existe para além da matéria, aparece como pano de fundo das ciências cognitivas, não concebendo a existência de qualquer realidade última não material, excepto como resultado da imaginação humana. John Searle reconhece mesmo que “há um sentido em que o materialismo é a religião do nosso tempo, pelo menos entre os peritos profissionais nas áreas da Filosofia, da Psicologia, das Ciências Cognitivas e de outras disciplinas que estudam a mente. Tal como as religiões mais tradicionais, é aceite sem questionamento e fornece a estrutura na qual outras questões podem ser colocadas, abordadas e respondidas” (4). Estas correntes de pensamento desembocaram numa concepção fisicalista da mente. O culminar destes anos de investigação levou a que se ousasse reformular com um novo enquadramento, muitas das “antigas” questões da humanidade, como, por exemplo: de onde vêm as emoções? Como é que pensamos e aprendemos? Como se produz a identidade? O que é a Consciência? Como é que o homem se relaciona com Deus?
2. “Neuro-teologia” e “Neurociências espirituais”
A espiritualidade é tão antiga como o próprio homem e, tal como a linguagem, constitui uma marca distintiva da sua própria natureza. O homem sempre procurou compreendê-la e encontrar o seu sentido mais profundo e verdadeiro. Hoje, esta busca tem lugar em novo cenário e contexto: o interior do cérebro humano! Na verdade, novos meios de investigação do funcionamento cerebral foram postos ao serviço do estudo da “experiência religiosa”. Sob uma nova perspectiva, procurou investigar-se as “bases neuronais” da experiência religiosa e descobrir os mistérios dos circuitos neuronais que nos permitem falar de Deus. O conjunto de dados emergentes, aliado ao renovado interesse pela experiência religiosa, ganhou, nos últimos anos, tal relevo que se ousou mesmo falar em “Neuro-teologia” ou “Neurociências espirituais”. A par da investigação em crescentes áreas do comportamento humano, a experiência religiosa passou a ser alvo do mesmo tipo de abordagem. Como foi defendido por quem se dedica a esta “nova área”, é tão importante estudar as bases neuronais da experiência [religiosa] como é investigar as bases neuronais da emoção, da memória ou da linguagem (5). Com base no “pressuposto de que as experiências religiosas são mediadas pelo cérebro (como aliás todos aspectos da experiência humana)” (5) a “Neuro-teologia” foi definida como um “campo de investigação científica no inter-cruzamento da psicologia, da religião, da espiritualidade e das Neurociências” (5) que teria como principal objectivo “explorar os mecanismos neuronais das experiências religiosas/espirituais/místicas” (5). O impacto, na sociedade contemporânea, dos trabalhos desenvolvidos nesta área foi de tal forma significativo que prontamente obteve o interesse do grande público e despertou tal curiosidade que conseguiu permear a cultura popular. Muitas publicações dedicaram-se a estes temas e, através da televisão, de jornais ou de revistas de “divulgação cientifica”, os novos instrumentos e resultados obtidos nesta área suscitaram grande entusiasmo e debate por parte da opinião pública, tornando-se rapidamente familiares e entrando no imaginário social. No ano de 1997, jornais e revistas davam conta da descoberta de um “God-spot” no cérebro, anunciando que os cientistas tinham descoberto a fonte das experiências religiosas. Estas notícias causaram imediatamente um amplo debate que se estendeu a diversas áreas da sociedade. Foram criados grupos de debate na Internet em que ateístas afirmavam que tinha sido provado que “Deus morava em algum lugar entre os lobos frontais e temporais” e teístas diziam que Deus tinha desenhado o cérebro humano de forma a ser receptivo ao divino. O jornal Washington Post publicava, em Junho de 2001, um artigo com o título “Tracing the Synapses of Our Spirituality” (Procurando as sinapses da nossa espiritualidade), noticiando que estava em marcha um amplo esforço dos cientistas mundiais para compreender as experiências religiosas, medi-las e até produzi-las. O artigo salientava o facto de que os investigadores estavam a utilizar a poderosa tecnologia da imagem cerebral para explorar “o que os místicos chamam de Nirvana e os cristãos descrevem como estado de graça”, deixando a pergunta “se a espiritualidade poderia ser explicada com base em redes neuronais, neurotransmissores ou bioquímica cerebral” (6). Em Maio do mesmo ano, a revista americana Newsweek publicava um artigo com o título: Your Brain on Religion: Mystic visions or brain circuits at work? (O seu cérebro na Religião: visões místicas ou circuitos cerebrais em acção?), em que procuravam analisar a nova área da “Neuroteologia”, definida como uma busca científica da base biológica da espiritualidade. No artigo, deixavam a pergunta: “Será que Deus está apenas na nossa cabeça?”(7).
3. À procura de Deus no cérebro
Há muito que se especulava que os sentimentos religiosos podiam ser correlacionados com áreas específicas do cérebro. Qual seria a conexão entre a arquitectura interna do cérebro e o funcionamento cerebral e a experiência religiosa? Este tipo de perguntas esteve na base de muitos projectos, podendo encontrar-se a sua maior expressão especialmente em três áreas: epilepsia, estudos de SPECT e recentes projectos utilizando técnicas de RM funcional.
3.1. Epilepsia
Alguns autores do campo da Psiquiatria estabeleceram uma aparente ligação entre “emocionalismo religioso” e epilepsia. O neurologista Norman Geschwind descreveu várias formas de “epilepsia com origem no lobo temporal” cujas crises estavam associadas, entre outros sintomas, à hiper-religiosidade (8). Estes dados sugeriram, a alguns, a hipótese da associação de crises epilépticas a diversos fenómenos religiosos. Neste sentido, chegaram mesmo a propor que estas crises poderiam ser responsáveis por algumas das maiores experiências religiosas da História da Humanidade, tais como as revelações de Maomé ou as visões de São Paulo no caminho de Damasco. Por mais gratuitas que sejam estas hipóteses, o certo é que motivaram o interesse pelo estudo da epilepsia associada a fenómenos religiosos. O Neurologista da Universidade da Califórnia San Diego, Vilayanur Ramachandran, publicou, em 1998, um livro com o título Phantoms in the Brain: God and the limbic system (Fantasmas no cérebro: Deus e o sistema límbico), (9) onde descreve crises epilépticas do lobo temporal associadas a fenómenos (auditivos ou visuais) de natureza religiosa. Os autores defendem que doentes, com este tipo de epilepsia, teriam maior propensão para sentimentos de tipo religioso. Para Ramachandran, a chave seria a activação do sistema límbico que teria maior conexão com o lobo temporal durante a actividade epiléptica e desencadearia “sentimentos religiosos”. Será que Deus e a religião são meros produtos de uma disfunção cerebral?
3.2. Michael Persinger e o God’s helmet
Com base nas descrições anteriores de crises epilépticas estarem associadas a experiências de natureza religiosa, Michael Persinger, da Laurentian University de Ontário, procurou criar artificialmente sentimentos religiosos. Para tal, desenvolveu um estimulador magnético transcraniano (God’s helmet) que transmitia estímulos eléctricos a regiões particulares na superfície cerebral. Um capacete (helmet) de múltiplos terminais eléctricos era aplicado na cabeça do indivíduo, cobrindo toda a superfície do crânio e transmitia determinados estímulos eléctricos às regiões que se pretendia activar. Foi descrito que, quando a estimulação era aplicada em determinadas áreas do lobo temporal, se podia produzir em algumas pessoas um sentido de presença divina (10). Assim, foi proposto que a experiência religiosa e a crença em Deus poderiam ser meramente o resultado de anomalias eléctricas do cérebro humano e retomou-se mesmo a hipótese de que certos eventos religiosos, nomeadamente envolvendo figuras como São Paulo, Moisés, Maomé ou Buda, poderiam ser o resultado de “neural quirks” (tempestades eléctricas). Estas tempestades também poderiam ser desencadeados por falta de oxigénio ou glicose no cérebro, o que explicaria que as pessoas frequentemente ‘encontrassem Deus’ em momentos de crise (10). Em 2005, cientistas suecos tentaram reproduzir o “God helmet”, mas esta tentativa não foi bem sucedida. Para explicar tal insucesso foi defendido que nem todas as experiências religiosas são as mesmas e que diferentes sentimentos religiosos poderiam ter origem em diferentes localizações cerebrais, não sendo, por isso, fácil a sua reprodução (11).
Muitas foram as críticas a estes trabalhos de Ramachandran e Persinger. A principal discordância prendeu-se com o facto de os estudos evidenciarem muito pouco conhecimento do fenómeno religioso em si. A grande maioria das pessoas que se diz religiosa ou que diz já ter tido alguma experiência religiosa, condição em que se enquadra uma grande percentagem da população mundial, nunca teve percepções extra-sensoriais semelhantes às descritas nos doentes epilépticos ou durante a utilização do “God’s helmet” e, reconhecidamente, não sofrem de anomalias neurológicas, psicológicas ou de uma doença mental. Nestes estudos, parece reconhecer-se a adesão dos autores a uma imagem antropomórfica de Deus como “Pessoa invisível” que, por vezes, fala a indivíduos seleccionados. Se analisarmos os fenómenos de hiper-religiosidade, descritos durante crises epilépticas, estes apenas utilizam linguagem, imagens ou conceitos de tipo “religioso”, não sendo, de facto, experiências religiosas verdadeiras. A proposta de ateístas e cépticos de que a religião e a espiritualidade poderiam resultar de uma mera disfunção cerebral deu origem a uma outra questão: será possível que, na realidade, a religião e a espiritualidade sejam uma “função” e não uma “disfunção” da actividade cerebral? Se a religião e a espiritualidade são uma função da actividade cerebral, será que é possível identificar uma actividade cerebral específica da experiência religiosa?
3.3. Single Photon Emission Computed Tomography (SPECT)
Desenvolvida em finais dos anos 60, o SPECT é uma técnica de Medicina Nuclear em que é injectada por via venosa uma substância marcada radioactivamente que se distribui por todo o organismo. A substância com marcação radioactiva é captada selectivamente por áreas em que a actividade seja maior. Aparelhos especiais, sensíveis à radioactividade, permitem determinar a concentração da substância e permitem avaliar, nomeadamente, o metabolismo cerebral. Esta técnica tem sido crescentemente utilizada em diferentes situações clínicas, em especial na área da epilepsia ou síndromas demenciais. Durante uma crise epiléptica, por exemplo, as áreas do cérebro, onde têm origem as crises, têm maior concentração do mais marcador radioactivo do que as outras áreas em redor, o que permite a sua identificação. Os neurofisiologistas Andrew Newberg e Eugene d’Aquili, partindo de uma concepção básica da relação mente/cérebro em que “o cérebro cria a mente e os dois são a mesma entidade, vistas de diferentes pontos de vista”, em vez de tentarem produzir artificialmente experiências religiosas, como com o “capacete de Deus”, utilizaram técnicas de SPECT para tentar avaliar tais experiências “naturalmente”. Assim, delinearam um estudo que pretendia avaliar quais as áreas de maior actividade cerebral durante estados de meditação e, para tal, realizaram estudos de SPECT em Monges Budistas tibetanos. No momento em que o monge dizia ter atingido um pico de meditação (definido como a perda do sentido de existência como indivíduos separados e a experiência de um sentimento de inexorável ligação com o Universo) o isótopo radioactivo era injectado e era obtida uma “imagem de activação cerebral” (12). Neste grupo de monges, durante o “estado de meditação” definido pelos autores como a perda de distinção entre o self e o resto do Universo (o indivíduo torna-se uno com o mundo que o rodeia), as imagens de SPECT mostraram um aumento da actividade cerebral no córtex frontal e uma diminuição na vertente póstero-superior do lobo parietal e amígdala bilateralmente (13). Na análise de tais resultados, os autores concluem que a perda de distinção das fronteiras do self durante um estado de meditação, estaria relacionada exactamente com a redução de activação na região parietal direita, área que normalmente controla a imagem espacial e a distinção das barreiras com o mundo exterior. Assim, a diminuição da actividade, nestas áreas, durante os estados de meditação, seria responsável pela perda da “sensação de fronteiras espaciais” do indivíduo (14). Os autores, repetiram, posteriormente, este estudo em freiras franciscanas durante períodos de oração. Os dados obtidos evidenciaram um aumento do fluxo sanguíneo cerebral no córtex pré-frontal, lobos frontais inferiores e lobo parietal inferior e uma diminuição no lobo parietal superior (15). Ao comparar os mapas de activação SPECT dos monges budistas em meditação com os das freiras franciscanas em oração, os padrões de activação obtidos eram muito semelhantes (15), o que, para os autores, sugeriu que a experiência religiosa, em termos neurobiológicos, parece transcender a expressão particular das diferentes religiões. A diferente “expressão exterior” do mesmo padrão de activação cerebral resultaria, no seu entender, de uma diferente modulação final por parte da consciência (15). A publicação destes trabalhos enfatizou, de alguma forma, a hipótese de que existiriam formas de actividade cerebral directamente associadas à “experiência religiosa” e que seria mesmo possível identificar correlações neuronais para diversos “estados místicos”. Com base nestes trabalhos os autores parecem refutar a ideia de que a “experiência espiritual” pudesse resultar de stress emocional, delírios ou outros estados patológicos (16), e reconhecem mesmo que a espiritualidade é o produto de “mentes sãs reagindo coerentemente a percepções que, em termos neuropsicológicos, são absolutamente reais” (16). Várias críticas têm sido apontadas a estes estudos, em especial no que se refere à definição de “experiência religiosa” que negligencia a complexidade intrínseca de tal fenómeno. E, quanto às conclusões delineadas, elas próprias são redutoras da religião, que se transforma, a esta luz, numa mera função neuronal.
3.4. Ressonância magnética funcional (fMR)
Utilizando técnicas de Ressonância Magnética, no início dos anos noventa do século XX, foi possível obter, pela primeira vez, imagens de activação cerebral. O grande avanço da Ressonância Magnética, em termos de definição anatómica das estruturas encefálicas, revolucionou o conhecimento do sistema nervoso central “in vivo” e todo o detalhe anatómico pode ser combinado com imagens funcionais: a actividade cerebral tornava-se visível. Num estudo de RM funcional pretende identificar-se quais as áreas cerebrais activadas quando se realiza uma determinada tarefa, seja uma tarefa simples como por exemplo, mexer as mãos, ou uma tarefa complexa, como escrever ou ler um texto. De que modo funciona esta técnica? Como é possível obter imagens da actividade cerebral? Complexos princípios físicos estão na base destes estudos que, de uma forma muito sucinta e básica, consistem numa comparação do “estado de oxigenação cerebral” enquanto o indivíduo realiza uma determinada acção e enquanto está em repouso. No decorrer de um estudo de RM funcional são obtidas imagens do encéfalo enquanto o indivíduo cumpre uma determinada tarefa e enquanto está em repouso. As imagens obtidas durante a activação e o repouso são depois comparadas estatisticamente, definindo-se quais as áreas cerebrais significativamente activas e, assim, presumivelmente associadas, à realização da tarefa em causa. Esta informação é traduzida em mapas de cor que indicam a localização das áreas activadas (Fig 1).
Figura 1. RM funcional: activação cerebral durante o movimento de ambas as mãos. Na imagem, é possível identificar áreas de cor amarela no córtex frontal, na circunvolução frontal ascendente, bilateralmente, correspondentes às áreas cerebrais de maior activação quando o indivíduo mexe as mãos.
Após a utilização de técnicas de SPECT para estudar as bases neuronais do fenómeno religioso, rapidamente se procurou utilizar a RM funcional no sentido de investigar a activação cerebral durante “experiências religiosas”. Em 2006, investigadores da Universidade de Montreal delinearam um estudo de RM funcional em que se procurava identificar a correlação neuronal de uma “experiência mística” (5). Os autores publicitaram um anúncio em que pediam voluntários, pessoas que, em alguma fase da sua vida, “tivessem tido uma experiência de intensa união com Deus”. Religiosas carmelitas responderam a este pedido e concordaram em participar no estudo. Assim, foram realizados estudos de RM funcional em quinze freiras carmelitas, com idades compreendidas entre os vinte e três e os sessenta e quatro anos, sem alterações psiquiátricas ou neurológicas (5). O protocolo desenhado pelos autores pretendia comparar o padrão de activação cerebral em três condições distintas que definiram como: condição mística (onde era pedido às religiosas para relembrar e reviver a experiência mística mais intensa que tivessem vivido na Ordem Carmelita), condição de controlo (onde era pedido para relembrarem e reviverem o estado de união mais intenso que tivessem tido com outro ser humano) e a condição de base (estado de repouso, sem qualquer tarefa a realizar). Os resultados obtidos foram bastante surpreendentes. Durante a condição mística, foi observada activação no córtex cerebral órbito-frontal medial, córtex temporal medial, lobo temporal inferior e superior à direita, núcleo caudado bilateralmente, córtex pré-frontal medial, lobo parietal inferior, ínsula e tronco cerebral à esquerda, bem como o Cíngulo anterior (5). Este padrão de activação cerebral diferiu não só do estado de repouso, mas também da condição de controlo (5). Um dado que emerge imediatamente da análise destes dados é a quantidade e diversidade das regiões cerebrais activadas durante a condição mística, o que de acordo com os autores, aponta claramente para a complexidade do fenómeno em causa (5). Nas conclusões do seu estudo enfatizam que “não há um local único de Deus no cérebro, situado unicamente no lobo temporal (...), mas estes estados são mediados por uma rede neuronal que está bem distribuída através do cérebro”(5). Foi também salientado o facto de que a recordação de experiências místicas e a recordação da união com outras pessoas parecem evocar padrões de activação cerebral diferentes.
Várias críticas têm sido apontadas, não só ao estudo realizado, mas também às suas premissas de base e conclusões. Analisando os paradigmas utilizados no estudo, é importante notar que, durante os períodos de activação, mais do que um estado de união com Deus, o que foi investigado foi a memória de experiências místicas prévias. Assim, as áreas de activação estão relacionadas com a memória de acontecimentos passados e é em relação a esta que se pode efectivamente estabelecer qualquer forma de correlação neuronal. Por outro lado, na análise dos resultados obtidos, há que ter em atenção algumas das limitações inerentes à própria técnica de RM funcional, nomeadamente o facto de que as imagens não captam alterações em “tempo-real” da actividade neuronal, mas apenas traduzem uma comparação com um “estado de repouso”. Tal como nos estudos de SPECT, o problema da adequação do objecto de estudo a este tipo de abordagem está bem presente. Se analisarmos as definições utilizadas pelos autores, relativamente às condições que pretendiam analisar, ficamos de alguma forma perplexos com o simplismo utilizado. O que é, de facto, uma experiência mística? O que entendem por sentido de união com Deus? Será que aquilo que foi definido como “condição mística” é verdadeiramente uma experiência religiosa? Mas um outro problema estrutural está presente nestes estudos. Mesmo que fosse possível encontrar respostas para estas perguntas e definições precisas das condições a estudar, como é possível reproduzi-las numa máquina de RM? Será que um estudo desta natureza alguma vez poderá abarcar a complexidade intrínseca daquilo que pretende estudar? Como encontrar uma tarefa apropriada que ilustre tais fenómenos? Este é um dado a ter em conta na análise de todos estes estudos e um dado fundamental na avaliação de qualquer resultado. De facto, é quase impossível encontrar um paradigma de activação que avalie rigorosamente uma “experiência religiosa” e não só no que se refere ao fenómeno religioso, mas também em muitas outras áreas de investigação, a utilização de estudos de RM funcional para avaliar comportamentos cognitivos complexos tem sido, exactamente por este motivo, muito criticada. Face a estas limitações, parece imperativo não se extrapolar as conclusões obtidas, mas analisar os resultados tendo em conta o que foi efectivamente investigado e ter em atenção que “valem o que valem”.
O estudo de Beauregard e colaboradores motivou grande interesse por parte da comunidade científica e da sociedade em geral, dando origem a intenso debate sobre esta temática. Após a publicação do estudo, alguns autores defenderam que o facto de se encontrar uma correlação neuronal para fenómenos religiosos implica que a religião não é mais que uma ilusão do divino, pois, se a espiritualidade pode ser explicada puramente como um fenómeno cerebral, não é necessária a premissa da existência de Deus. O encéfalo medeia todas as experiências humanas, desde a respiração à contemplação da existência de Deus. Esta é, actualmente, uma verdade indiscutível. Que a experiência religiosa se reflicta na actividade cerebral não é, de facto, surpreendente pois tudo o que “experimentamos” é mediado pelo cérebro. A descoberta de uma correlação neuronal para uma experiência não significa que essa “realidade vivida” exista ‘apenas’ no cérebro. A associação de uma experiência a uma determinada actividade neuronal específica não implica necessariamente que essa experiência seja uma mera ilusão neuronal. Neste sentido, é interessante ver que, no estudo de RM funcional, as religiosas carmelitas estavam muito contentes com a sua participação no estudo e com os dados obtidos porque pareciam, até, confirmar a “realidade” da sua interacção com Deus. Que as nossas percepções não são uma “prova” da existência da realidade deveria ser, desde Platão e dos filósofos gregos, claramente evidente. É interessante a reformulação desta questão que as Neurociências recentemente puseram em evidência: O cérebro cria a realidade que percebemos e, assim, não sabemos o que, de facto, é ‘real’. Cérebro e realidade: o problema da experiência, da percepção e da sua relação com a realidade parecem ganhar uma nova formulação e terminologia neuro-científica. Mas este renovado diálogo necessita do imprescindível contributo da Fenomenologia. Deveria ser evidente que a realidade externa de “Deus” não pode ser confirmada nem negada pela descoberta de correlações anatómicas dos fenómenos religiosos. A existência de uma base neurológica para “experiências religiosas” não prova que Deus é exclusivamente um produto da biologia, inexistindo para além dos meandros de conexões sinápticas e de mediadores químicos. E podemos mesmo afirmar que, se Deus existe, só pelos nossos cérebros o podemos “experimentar”. Com base nos seus múltiplos estudos, Newberg e D’Aquili publicaram, em 2001, um livro com o surpreendente título: Why God Won't Go Away: Brain Science and the Biology of Belief (Por que é que Deus não se vai embora: a Ciência do Cérebro e a Biologia da crença) (12). À luz das experiências que, até então, tinham realizado, procuram, neste trabalho, analisar o fenómeno religioso. Deus atravessa a história dos homens e permanece através do tempo, sendo o fenómeno religioso universal e trans-temporal. Para os autores, este “Deus que não se vai embora” é a ideia de Deus, produzida pelos vários mecanismos cerebrais (17). James Ashbrook e Carol Albright trabalhando na interface “ciência – religião” no Chicago Center for Religion and Science, no seu livro “The Humanizing Brain: Where Religion and Neuroscience Meet” (O cérebro Humanizante: Onde a Religião e as Neurociências se encontram) (18) procuram conjugar dados de neuroanatomia e neurofisiologia com a “experiência religiosa”. O primeiro impulso de um cientista, ao analisar este tipo de publicações, é de rejeição. Ao reflectirmos sobre os estudos realizados e sobre os dados apresentados, as suas limitações tornam-se imediatamente evidentes. Nos estudos apresentados, não há controlos nem definições científicas objectivas e, assim, as conclusões não são estatisticamente válidas. Jerome Groopman, professor de Medicina de Harvard, fez, a este propósito, na revista The New Yorker em Setembro de 2001, uma revisão destes livros. No seu artigo, defende que Newberg and D'Aquili, assim como Albright and Ashcroft, não realizaram experiências científicas rigorosas, sendo as suas conclusões dúbias. Para Groopman, estes estudos cometem o “erro cardinal de Neuroteologia: misturar termos e métodos da ciência com a religião numa tentativa de conferir a uma a autoridade da outra” (19). Neste sentido, Groopman não acredita que alguém possa sugerir que uma imagem de SPECT ou RM cerebral possa, de alguma forma, ser uma “fotografia de Deus” . Livros e experiências, como Why God Won't Go Away e The Humanizing Brain, não podem ser encarados como dados científicos rigorosos. O problema é que são apresentados ao público como dados científicos objectivos e incontestáveis. Os meios de comunicação social tratam-nos como dados de ciência rigorosa, não sendo alvo de uma correcta análise relativamente àquilo que efectivamente representam. Como Sharon Begley escrevia no seu artigo da revista Newsweek, “apesar de todo o sucesso que os cientistas estão a conseguir na sua investigação das bases biológicas da experiência religiosa, o mistério permanecerá, seguramente, para além da sua apreensão. Podem localizar um sentido de transcendência até à sua origem na substância cinzenta. E podem localizar um sentimento do divino. Mas é provável que nunca resolvam a maior questão de todas: se o nosso cérebro cria Deus ou se Deus criou o nosso cérebro. Aquilo em que se acredite é, no fundo, uma questão de fé.” (7)
Conclusão
Muitos são os desafios com que, ao longo da sua evolução, as Neurociências foram confrontando a religião. As Neurociências oferecem oportunidades para a compreensão do fenómeno religioso, promovendo um renovado diálogo ciência - religião. Mas, se as descobertas científicas podem iniciar novas formas de diálogo e abrir caminhos para a reflexão, têm em si mesmas o perigo de iniciarem um debate fora de um contexto que permita a sua correcta interpretação. Será que, ao perseguirmos uma “abordagem científica” da espiritualidade humana, estamos a entrar numa busca sem sentido? Os teólogos têm chamado a atenção para o facto de que a maior parte das “práticas religiosas”, que foram alvo de investigação, não descrevem a religiosidade da maioria das pessoas. A religião é mais que uma meditação ou uma lembrança de experiências passadas. Da “experiência religiosa” faz também parte a ausência, o sofrimento, a luta e até momentos de angústia em que prevalece um sentimento de abandono por parte de Deus. A complexidade do fenómeno religioso é negligenciada em muitas das abordagens científicas que, à partida, não têm uma visão global daquilo que pretendem estudar. A espiritualidade e a fé são, no seu todo, maiores que a soma de pequenas partes que as constituem e que apenas afloram à superfície. A Religião integra uma história e simbolismo extremamente ricos e os “neurocientistas”, que a procuram analisar isolam apenas pequenos aspectos da experiência religiosa e identificam-no com o todo da Religião. Apesar de todos os sucessos obtidos nas últimas décadas e da multiplicidade de informação disponível, até aos dias de hoje, as Neurociências apenas conseguiram fornecer dados anatómicos básicos e vagas pistas funcionais para explicar a complexidade dos sentimentos e dos comportamentos humanos. O princípio reducionista que caracteriza as Neurociências modernas tem por base a noção de que todos os fenómenos, independentemente da sua complexidade, podem ser compreendidos pela redução a unidades básicas e que estas podem ser analisadas e medidas “cientificamente”. Procura fazer-se uma lista de localizações cerebrais, como se nomear nos fizesse compreender. Mas será que esta abordagem foi capaz de abarcar a complexidade e de solucionar os enigmas da mente humana? Como podem as “Neurociências modernas” ultrapassar o reducionismo em que estão imersas, em especial quando procuram desvendar os enigmas da consciência ou o fenómeno religioso? Se as Neurociências querem abordar algumas das grandes questões da humanidade, tais como o mistério da consciência ou o fenómeno religioso, precisam de apelar a novos métodos que sejam capazes de abranger a complexidade das realidades em questão. Os neurocientistas devem procurar novas estratégias e redefinir paradigmas, sustentando novas abordagens que não se baseiem apenas numa soma de inúmeras partes, mas se integrem numa visão alargada da mente, do homem e da própria realidade. Neste sentido, surge um forte apelo a novos contributos de outras áreas do saber que se unifiquem numa perspectiva integradora e imponham, em diferentes domínios, a urgência de uma reflexão filosófica aprofundada. O contributo da Filosofia nas áreas da Epistemologia, da Antropologia, da Fenomenologia, da Metafísica e da Ética é crucial para as Neurociências modernas. As perguntas “O que é o Homem?”, “O que é a Transcendência?”, “O que é o conhecimento científico e quais as suas limitações?”, “Será possível falar de Neuro-ética?” são fundantes e devem ser incorporadas na reflexão, constituindo a base de qualquer investigação científica na área das Neurociências. Muito se tem investigado e escrito sobre “Deus e o cérebro”. Este tema apaixona, certamente, não só os neuro-cientistas e os investigadores mas também os teólogos, os crentes e os ateus e toda a sociedade em geral. Um antigo debate tem hoje lugar num novo ambiente, com novas palavras (neurónios, conexões neuronais, mediadores químicos) e imagens do cérebro em acção que constituem a linguagem actual para falar de Deus. Numa nova fronteira, o cérebro humano, irrompe um novo discurso no diálogo “Ciência – Religião”. Mas, para que se possa desenrolar um efectivo diálogo, é necessária uma profunda reflexão por parte dos seus interlocutores; a Religião precisa de aprender a linguagem da Ciência e a Ciência precisa de ouvir a vivência da fé.
Referências
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